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Uma das maiores contribuições de Brasília para a sociedade brasileira vem da diversidade cultural gerada pela chegada de famílias vindas dos quatro cantos do país em suas cinco décadas de existência. É desse caldeirão cultural que Brasília se alimenta e produz, num movimento de caráter antropofágico, cidadãos com uma cosmopolita e, por isso mesmo, singular visão de mundo que apenas tal miscigenação poderia gerar. Nesse sentido, Barra do Corda, ao lado de outras cidades menores e centros urbanos, representa uma das maiores forças do Nordeste na capital federal, engrossando esse caldeirão desde a imprescindível chegada de barra-cordenses aqui já a partir de 1957, antes mesmo da inauguração, em 1960.
Natural de Barra do Corda, e como tantos conterrâneos, adotei Brasília como minha segunda casa e fui, em parte, testemunha do papel cordino na formação da alma brasiliense. Brasília acaba de completar 50 anos e me encanta saber que gente da minha cidade contribuiu tanto para a construção da cidadania desta jovem senhora. Aqueles que deixaram Barra do Corda, no entanto, nunca a esqueceram: o verso “és tudo para mim, terra querida”, do saudoso poeta Olímpio Cruz, a quem muito me honra ter conhecido, continua a aquecer os corações dos que de lá saíram e nunca pararam de amá-la. Assim como outros filhos radicados em Brasília, amo minha cidade.
Barra do Corda, ao contrário de Brasília,
não é, há tempos, uma jovem senhora, mas uma anciã
de 177 anos, recém-completados. Uma centenária calejada por
sua incrível trajetória abundante em tradição
e sabedoria popular. Mas espere aí. Um instante, maestro. Aproveito
o intervalo indelicadamente sugerido da música e dos fogos de artifício
para perguntar aos meus botões: tal sabedoria, tão vigorosa
na prolífica produção cultural da cidade, foi transformada
em senilidade no campo político? Ou trata-se de fenômeno passageiro?
Meus estarrecidos botões devaneiam, mas não encontram resposta.
Senão, vejamos. O volume de recursos gerados a partir do Fundo de
Participação dos Municípios parece nunca ser suficiente
para um investimento com “I” maiúsculo na cidade, sobretudo
em infra-estrutura (esta, cada vez mais, minúscula, com o perdão
do trocadilho). Em pleno século 21, com a agenda mundial tomada por
temas como aquecimento global - o assunto é discutido pelas mais
importantes lideranças do planeta -, Barra do Corda ainda assiste
a degradação de seus rios a céu aberto e o apodrecimento
de suas ruas por falta de um sistema eficiente de tratamento de esgoto.
Os hospitais vegetam à espera de novos investimentos e tecnologias que tornariam a vida de doentes menos penosa. A chamada medicina preventiva é ineficaz, para não dizer inexistente. As escolas definham com a falta de preparo de professores e a evasão escolar no ensino médio. Ou seja, quem quiser permanecer em Barra do Corda, pode praticamente esquecer uma formação educacional que prepare o jovem para o mercado de trabalho. Como consequência, a violência e a pobreza urbana seguem corroendo qualquer iniciativa familiar de integração social, relegando boa parte da juventude cordina à margem do processo de construção de uma cidadania digna, aquela que deveria ser um dos pilares destes tempos “modernos”.
Pode-se argumentar, com alguma dose de razão, que
a atual situação é reflexo das dificuldades que o país
enfrenta desde tempos imemoriais e que seria ingenuidade acreditar que tantos
problemas podem ser resolvidos da noite para o dia. É inegável,
não se pode apagar facilmente as marcas profundas de um Brasil que
ainda ecoa sua dolorosa história de casas grandes e senzalas... Mas
a pergunta que não cala é: existe alguém tentando?
Certamente, não se constrói cidadania numa cidade que pouco
conhece de sua realidade. Pois o fato é que não há
dados e estatísticas confiáveis sobre hábitos e comportamento
da população porque nunca se investiu nisso. Assim, a formulação
de qualquer plano de ação em benefício da cidade esbarra
na própria ignorância de seus dirigentes (?!) acerca de seu
povo e suas necessidades. Seria cômico se não fosse trágico.
Aliás, é de se perguntar também se existe algum plano
administrativo, qualquer ele que seja que possa nos levar a acreditar que
possamos recuperar o tempo perdido e promover as mudanças necessárias
que vão transformar a vida dos nossos conterrâneos.
Meus humildes botões oferecem, no entanto, uma sugestão: a de que façamos uma reflexão sobre qual Barra do Corda queremos para nós e para as futuras gerações. Uma cidade com orgulho de sua cultura, democracia e luta incansável por cidadania? Ou um fracasso permanente, eternizado por nossa absoluta falta de vontade política de mudar e de fiscalizar o poder público? Seremos agentes de nosso destino, gestores de nossa transformação social? Ou meros coadjuvantes de nossa própria história?
Barra do Corda completou 177 anos. Temos muito do que nos orgulhar. E também muito o que fazer. Enquanto isso, siga com a música, maestro...
Sueide Miranda Leite